quarta-feira, 22 de junho de 2016

Bakhtin por Boris Schnaiderman (Folha de São Paulo - domingo, 28 de outubro de 2001)

A arte da superação - Boris Schnaiderman -especial para a Folha


Por mais apreço que eu tenha pelos trabalhos de Carlos Alberto Faraco, não posso deixar de estranhar sua reação ao livro "Mikhail Bakhtin", de Katerina Clark e Michael Holquist, publicado pela Perspectiva em 1998, em tradução de Jacó Guinsburg. "Boa biografia; a interpretação dos textos é, porém, pobre e datada", afirmou ele no Mais! de 30/9/01. Certamente o espaço exíguo de que dispunha contribuiu para a forma peremptória de sua afirmação.
Convém, nesse caso, considerar a importância que uma boa biografia tem para os estudos teóricos. Aliás, já em 1931 Roman Jakobson afirmava em seu ensaio suscitado pelo suicídio de Maiakóvski ("Sobre a Geração Que Esbanjou os Seus Poetas", em russo) a necessidade de superar o antibiografismo então em voga.
Isso adquire uma relevância peculiar quando tratamos de Bakhtin, pois sua obra traz evidente a marca das terríveis vicissitudes que sofreu. Por exemplo, estranhei sempre a ausência, ali, de uma exposição clara sobre a relação entre dialogismo e dialética, não obstante seu cuidado com a fundamentação filosófica. Mas trata-se evidentemente da impossibilidade, na época, de um ataque frontal à dialética hegeliana, e uma oposição a esta se percebe em alguns de seus textos.
Antes do livro de Clark e Holquist podiam-se fazer conjeturas sobre isso, mas a rica documentação biográfica permite precisar melhor as razões da lacuna. Aliás, o próprio termo "lacuna" se torna discutível, quando situamos os escritos no contexto da época.
Nunca será demais sublinhar a importância da pesquisa de que o livro dá conta. Ocorriam então no Ocidente os maiores equívocos sobre a obra bakhtiniana, justamente pelo desconhecimento das circunstâncias em que ela se desenvolveu. Seria muito fácil citar exemplos do que estou afirmando agora, mas eu já me dediquei a isso mais de uma vez.
É surpreendente que tenham surgido num livro de 1984 dados tão precisos sobre um autor até então misterioso, pois é conhecida a dificuldade que havia então para pesquisas em arquivos soviéticos. Se fosse publicado alguns anos mais cedo, certamente se evitaria muita bobagem que havia aparecido então, inclusive com a assinatura de nomes ilustres.
Voltando, porém, à nota de jornal que suscitou o presente comentário, temos de reconhecer: não obstante a afirmação recente sobre a "boa biografia" acompanhada de uma interpretação de textos "pobre e datada", Carlos Alberto Faraco defende em alguns trabalhos, particularmente em "O Dialogismo como Chave de uma Antropologia Filosófica" (na coletânea "Diálogos com Bakhtin", organização de Carlos Alberto Faraco, Cristovão Tezza e Gilberto de Castro, publicada em 1996 pela Editora da Universidade Federal do Paraná), uma abordagem que supere "o divórcio entre o conhecer e o agir, entre a ciência e a vida", a partir do qual, segundo sua argumentação, as ciências humanas operam atualmente. Francamente, relendo sua formulação, que me parece muito boa, não consigo compreender as reservas que faz ao livro de Clark e Holquist.
Já a referência a uma interpretação "datada" nos remete ao seguinte: tudo o que se escreve sobre Bakhtin corre o perigo de ficar superado por textos desse pensador que vão aparecendo até hoje, na medida em que prosseguem os difíceis trabalhos de publicação de seu acervo, constituído, em grande parte, de anotações em cadernos, que em 1972 eu vi perplexo em seu quarto em Pierediélkino, a aldeia dos escritores, afogada em bétulas, próxima de Moscou.
Posso citar um exemplo da superação de algo que eu mesmo escrevi. Durante muitos anos, fiquei me debatendo com a afirmação bakhtiniana de que a poesia é essencialmente monológica. Isso me parecia absurdo e se chocava com formulações de V. Vinogradov, que percebia na poesia de Akhmátova, ainda antes da teorização de Bakhtin sobre dialogismo e polifonia, uma expectativa tensa em relação ao outro, um discurso que dependia do discurso do interlocutor. Mas, no caso de Bakhtin, qualquer afirmação não anula a possibilidade de outra diametralmente oposta. Não se tem aí, de fato, uma contradição do autor, mas a ocorrência de discursos múltiplos em sua manifestação.
Pois bem, no volume cinco das "Obras Reunidas" (em sete volumes), atualmente em curso de publicação, apareceu em 1997 o inédito "Sobre Maiakóvski", conhecido parcialmente desde a década de 80. Em forma bem fragmentária, de anotação prévia, surge ali uma literatura realmente inovadora da obra maiakovskiana.
Ela é vista como a presença de uma polifonia que ultrapassa as limitações do discurso tradicional e traz a multiplicidade da elocução das grandes massas, postas em movimento pela revolução. Tem-se no discurso múltiplo, essencialmente, a "heroicização" da vida contemporânea, em proporções gigantescas. Segundo Bakhtin, esse épico moderno somente se tornou possível na Rússia soviética, e Maiakóvski teria sido a grande voz que o expressou (incrível essa afirmação de alguém tão perseguido pelo sistema!).
Mas, se, por um lado, o aparecimento de novos textos torna superadas certas afirmações advindas do desconhecimento deles em seu conjunto, os caminhos que os teóricos percorreram são, por sua vez, significativos, e, sem dúvida, o aparecimento de um pensador como Bakhtin abriu novos caminhos, mesmo quando a assimilação de seus escritos era falha e fragmentária.
Enfim, não posso deixar de acrescentar agora minha voz ao grande "simpósio universal" a que a obra de Bakhtin continua a nos convidar.



Boris Schnaiderman é crítico e tradutor, autor de, entre outros, "Turbilhão e Semente" (ed. Duas Cidades) e "Os Escombros e o Mito" (Cia. das Letras).


http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2810200113.htm

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